O Desafio das Novas Séries: Adaptar o Pecado em Leiria e o Glamour dos Kennedy
A transição de paixões arrebatadoras, sejam elas nascidas na literatura clássica ou nas páginas da vida real, para a televisão exige um rigor absoluto. Desde a reconstrução de épocas passadas até à escolha minuciosa de atores capazes de encarnar figuras icónicas, as produções enfrentam o escrutínio constante do público. Duas novas séries televisivas ilustram na perfeição a complexidade desta tarefa, lidando com amores proibidos, escândalos mediáticos e a recriação fiel de atmosferas históricas distintas.
A Tensão e o Pecado na Leiria Oitocentista
Com realização de Leonel Vieira, a mais recente adaptação do aclamado romance de Eça de Queirós, “O Crime do Padre Amaro”, lança um olhar acutilante sobre a hipocrisia da sociedade e da Igreja no Portugal do século XIX. A narrativa transporta os espetadores para a Leiria do final da década de 1860, onde acompanhamos a chegada do jovem padre Amaro, interpretado por José Condessa, que vem substituir o pároco local recém-falecido. O seu amigo e confessor, o Cónego Dias, instala-o na casa de uma viúva sua conhecida, a São Joaneira. É neste ambiente aparentemente recatado que desponta a paixão proibida entre o clérigo e Amélia, vivida por Bárbara Branco e descrita como a rapariga mais bonita da cidade. O elenco de peso desta produção conta ainda com as interpretações de José Raposo e Filomena Gonçalves.
A trama desenvolve-se de forma densa e emocional, ancorada em profundos conflitos de personalidade. Os olhares cúmplices entre Amaro e a jovem Amélia não passam despercebidos, mas um deslize inicial obriga o pároco a abandonar inesperadamente a casa da viúva, deixando a sua amada num profundo desgosto. A situação agrava-se substancialmente com a publicação de um artigo de jornal que choca a conservadora sociedade leiriense e força a divergência temporária dos caminhos do casal. Determinado a proteger a sua reputação, Natário desmascara o autor do texto difamatório e alia-se a Amaro para o arruinar. Consequentemente, João Eduardo acaba por ser despedido, humilhado e forçado a abandonar Leiria.
Livre deste obstáculo, o clérigo delineia um plano audacioso para se encontrar a sós com Amélia de forma regular. Os dois vivem então um verdadeiro idílio amoroso, profundamente apaixonados. Uma sombra acaba, contudo, por abater-se sobre a relação. Preocupada com o estado de Amélia, São Joaneira pede ao Cónego Dias para investigar o que se passa na sua própria casa. Amaro chega a ser confrontado pelo seu mestre, mas consegue contornar a situação e ganhar um forte aliado. Enquanto o cónego leva a mãe de Amélia a banhos, o destino da jovem grávida é traçado longe de olhares indiscretos. No dia do nascimento da criança, o padre toma a drástica decisão de a retirar à mãe e entregá-la a uma ama, uma rutura abrupta que desencadeia repercussões totalmente inesperadas.
O Peso do Legado e a Pressão do Elenco
Se a recriação de um clássico da literatura traz desafios imensos, dar vida a figuras históricas amplamente documentadas eleva ainda mais a fasquia da exigência. A nova série da FX, “Love Story”, que se debruça sobre o icónico relacionamento entre John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette-Kennedy, prova que a escolha do elenco é o pilar de qualquer narrativa biográfica. O criador e produtor executivo Connor Hines, juntamente com a equipa de produção que inclui Ryan Murphy e Nina Jacobson, deparou-se com a difícil missão de encontrar os protagonistas ideais capazes de nos transportar para aquele momento histórico específico.
A escolha do ator para encarnar JFK Jr. revelou-se um processo moroso. A equipa de casting avaliou mais de mil candidatos, procurando alguém que possuísse a estética peculiar e uma masculinidade de outra época que dificilmente se encontra nos atores principais da atualidade. A solução surgiu a escassas três semanas do início das gravações. O modelo canadiano Paul Anthony Kelly, que ponderava desistir da representação por não ver resultados práticos na área, impressionou a diretora de casting Nicole Daniels. O ator tinha sido um dos primeiros a ser avaliados, mas o processo de seleção exige muitas vezes um olhar atento no momento exato. Bastou um teste de química com a atriz Sarah Pidgeon, escolhida para dar vida a Bessette, para confirmar a aposta. Jacobson recordou a naturalidade impressionante da interação entre ambos, salientando o conforto imediato que demonstraram em cena.
O escrutínio, inevitável nestas grandes produções, começou muito antes de a série chegar aos ecrãs. Em junho de 2025, a divulgação de algumas fotografias de Sarah Pidgeon na pele de Carolyn Bessette gerou dúvidas imediatas. Vários críticos questionaram se a série conseguiria captar o estilo singular e inconfundível da executiva de moda. O guionista e produtor executivo Ryan Murphy interveio para acalmar os ânimos, esclarecendo que as imagens captadas não refletiam o guarda-roupa definitivo. Revelou ainda a existência de um conselho consultivo de estilo composto por doze pessoas, focado exclusivamente em garantir a máxima precisão visual.
Após a muito aguardada estreia a 12 de fevereiro, o público recorreu em peso às redes sociais para partilhar o seu veredito. As opiniões no Instagram dividiram-se de forma muito passional. Muitos espetadores renderam-se à produção, elogiando a extraordinária prestação dos atores e a química evidente, classificando mesmo o elenco como perfeito. Outros, demonstrando o peso gigante da memória destas figuras reais, não hesitaram em manifestar o seu desagrado perante a representação, afirmando de forma taxativa que aqueles não eram os seus Carolyn e John.