O Adeus de Marques Mendes e as Narrativas que Desafiam a Realidade

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O ciclo de Luís Marques Mendes na SIC Notícias chegou ao fim com um tom solene e, simultaneamente, afetuoso. Na sua última intervenção, o comentador despediu-se do espaço que ocupou durante anos com um agradecimento “muito sentido” à pivô Clara de Sousa, elogiando-a como uma “super profissional”. Este momento marcou não só o encerramento da sua análise semanal, mas também o prelúdio de uma nova e ambiciosa etapa: a entrada na corrida a Belém. O antigo líder do PSD avança para a candidatura presidencial com “total confiança”, deixando para trás um vasto histórico de escrutínio político que, nas últimas semanas, se revelou particularmente incisivo.

Um legado de análise contundente

Antes de ultimar a sua reflexão sobre a candidatura à Presidência da República, Marques Mendes não poupou críticas a figuras e instituições centrais da atualidade portuguesa. Ficará na memória a dureza com que abordou o caso de Miguel Arruda, sugerindo que, se houvesse “um pingo de decência e vergonha”, o mandato teria sido suspenso. De igual forma, a demissão de Gandra D’Almeida serviu de mote para questionar a própria utilidade da Comissão Executiva do SNS. O comentador dissecou ainda a economia e a sociedade, desde a aprovação de 30 medidas de simplificação fiscal pelo Governo até aos alertas sobre a falta de literacia financeira no crédito à habitação, passando pelo elogio a Hélder Rosalino pela sua decisão de abandonar o cargo que ocupava.

Na sua retrospetiva dos factos políticos e figuras do ano, Marques Mendes deixou avisos claros. Sobre o fenómeno do Chega, lançou dúvidas sobre se a candidatura de André Ventura se manterá até ao fim, e, num tema fraturante como a imigração, sublinhou uma distinção fundamental: os portugueses não estão contra a imigração, mas existe uma imagem negativa associada às políticas implementadas. Agora, enquanto o país aguarda os desenvolvimentos desta nova “novela” política — termo que o próprio utilizou nas suas análises —, os espectadores procuram outras formas de entretenimento que, tal como a política nacional, sejam capazes de desafiar a lógica e provocar perplexidade.

Ficções que testam os limites da razão

Se a complexidade dos bastidores de São Bento exige atenção redobrada, o mundo das séries televisivas oferece, em alternativa, narrativas onde o bizarro e o inexplicável reinam. Para os órfãos do comentário político de domingo à noite que procuram estímulos intelectuais distintos, existem produções que roçam a alucinação. É o caso de Catterick, uma jóia do humor britânico protagonizada por Vic e Bob. A série inicia-se de forma inócua, com uma visita familiar, mas rapidamente descamba para a anarquia absoluta, misturando pósteres de George Clooney e rotinas de dança inquietantes num enredo com mais tangentes que uma conferência de geometria.

Num registo igualmente surreal, mas com uma carga mais sombria, a animação Monkey Dust capturou, no início dos anos 2000, o lado mais negro da vida urbana britânica. Com episódios que repetiam ciclicamente tragédias pessoais de um leque de personagens deprimidas, a série destacou-se pelo seu tom hipnótico e perturbador, raramente igualado desde então.

Viagens interdimensionais e freiras contra a IA

Para quem prefere o mistério metafísico, The OA apresenta-se como um verdadeiro labirinto. Entre viagens interdimensionais e conversas filosóficas que parecem não levar a lado nenhum, a série evoca a sensação de se ter entrado na Twilight Zone, mantendo os espectadores acordados de madrugada a tentar decifrar o enredo. Num espetro diferente, mas igualmente estranho, Mrs. Davis surpreende ao colocar uma freira a combater uma inteligência artificial benigna. O que começa com flashbacks de sociedades secretas medievais evolui para uma trama bizarra, mas estranhamente coerente, provando que é possível misturar o Santo Graal com a tecnologia moderna de forma brilhante.

No universo das adaptações de banda desenhada, Legion subverte todas as expectativas. Sendo um spin-off da Marvel sem super-heróis tradicionais, foca-se numa entidade maligna alojada na mente de um esquizofrénico. A produção destaca-se pelo design visual e por situações absurdas, como ter a atriz Aubrey Plaza presa numa parede ou viagens mentais a palácios com estética dos anos 70.

Clássicos de culto e mistérios por resolver

O fascínio pelo desconhecido não é um fenómeno recente. O clássico The Prisoner continua a ser uma referência incontornável, combinando a estética vibrante dos anos 60 com uma atmosfera ameaçadora. A luta de Patrick McGoohan para escapar de uma vila idílica, vigiado por um enorme balão branco assassino, permanece um exemplo de como o design psicadélico pode esconder propósitos sinistros. Mais recentemente, The Leftovers explorou o desaparecimento súbito de 2% da população mundial. Com um elenco de luxo e uma escrita tensa, a série prendeu a audiência pela estranheza crescente de cada temporada, deixando, tal como muitas manobras políticas, várias perguntas sem resposta no final.