Da Estética da Morte à Prisão do Passado: Os Labirintos do Trauma no Ecrã

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Quando um luto indescritível nos bate à porta, o que fazemos com a dor que sobra? Esta é, de facto, uma daquelas questões difíceis em que o cinema gosta de espicaçar, procurando respostas nos cenários mais díspares — seja através de uma caçada megalómana pelas capitais europeias ou no isolamento sufocante de um pedaço de madeira no meio do mato.

No caso de Postais Mortíferos, a resposta para a dor é atravessar um oceano e não olhar para trás. Com realização de Danis Tanovic, esta adaptação do “best-seller” de Liza Marklund e James Patterson entra a matar com o pior pesadelo de qualquer pai: o assassinato brutal e aleatório de um jovem casal americano que passava férias em Londres. Completamente destroçado, o detetive Jacob Kanon (Jeffrey Dean Morgan, encabeçando um elenco que conta ainda com Cush Jumbo, Famke Janssen e Naomi Battrick) larga tudo em Nova Iorque e lança-se numa perseguição implacável no velho continente. A coisa rapidamente ganha contornos de um requinte macabro quando corpos começam a dar à costa em França, na Alemanha, na Dinamarca e na Suécia. O detalhe sinistro? A posição dos cadáveres recria, ao milímetro, obras de arte famosas, deixando a certeza perturbadora de que andamos a lidar com um assassino em série com uma veia perversamente teatral. Como se a morbidez não fosse suficiente, o psicopata diverte-se a avisar as redações locais com um postal sempre que o próximo massacre está na calha. É no meio deste labirinto banhado a sangue que Kanon acaba por se aliar a Dessie Larsson, uma jornalista americana sediada em Estocolmo, numa corrida contra o tempo para decifrar as pistas antes que mais inocentes paguem a fatura daquele espetáculo doentio.

Se a fita de Tanovic exterioriza a perda e o trauma projetando a violência na tela larga de uma Europa transformada em galeria de horrores, Shadows of Willow Cabin prefere trancar-nos com os nossos próprios demónios num espaço minúsculo. A estreia de baixo orçamento de Joe Fria quer provar que os verdadeiros monstros muitas vezes já vêm connosco na bagagem da vida. O melhor do “elevated horror” costuma pegar no subtexto emocional e transformá-lo numa metáfora visceral, mas Fria acaba por ficar a patinar um bocado na hora de dar o salto definitivo. Não é por falta de ambição ou temas na mesa: o filme foca-se de cabeça na homossexualidade reprimida, na vacuidade dos engates compulsivos e naquelas feridas geracionais que teimam em não sarar. O problema é que, durante grande parte da narrativa, os elementos de terror parecem saltar do armário apenas para atropelar o que, de outra forma, seria um drama gay carregado de tensão.

A premissa arranca na ressaca de um vulgar “match” nas aplicações de encontros. O professor de inglês de meia-idade Albert (Bryan Bellomo) e Devon (John Brodsky), um paramédico bem mais novo e esguio, vão finalmente aquecer os lençóis na pacata Willow Cabin. O refúgio, que outrora pertenceu ao tio de Albert, deve o seu nome a uma fala de A Noite de Reis, de Shakespeare, mas rapidamente percebemos que por baixo daquele engate supostamente descontraído e carnal há segredos a apodrecer. Albert tem mulher e filho em casa, e aquele mesmo pedaço de chão foi o palco onde, anos antes, explorou pela primeira vez a outra faceta da sua sexualidade com o próprio primo. Do outro lado da cama está Devon, para quem Albert é apenas mais um numa longa e deprimente lista de casinhos frustrantes com homens casados — uma espiral de autodestruição muito cimentada pelos abusos que sofreu às mãos do pai.

Embora ambos ponham as cartas na mesa até certo ponto de sinceridade, as esporádicas explosões fantasmagóricas dentro da cabana deixam logo o aviso de que o passado não está, de todo, arrumado. Esta purga emocional arrasta-se penosamente ao longo de 114 minutos, frequentemente atulhados em diálogos que andam em círculos e que, de vez em quando, roçam o piroso. Shadows of Willow Cabin sente-se, acima de tudo, como uma obra intensamente pessoal, mas o realizador demora uma eternidade a largar o tom de pantomima gótica para conseguir dar raízes mais profundas a esta saga familiar de vergonha. Valha-nos a inventividade visual que Fria consegue espremer daquela claustrofobia: ele manipula a iluminação interior de forma a acompanhar o estado de espírito das personagens, banhando o espaço com um tom doentio à medida que o ar se torna irrespirável. Numa ou outra cena de maior brilhantismo, até vai buscar aquela câmara em rotação contínua que Alfonso Cuarón imortalizou em Roma, deixando que sejam os ruídos em redor da cabana a fazer o trabalho sujo de nos arrepiar a espinha.

No fundo, enquanto a prestação de Brodsky se perde um pouco nas exaltações histriónicas típicas das noites de sustos de série B, Bellomo, por trás da sua fachada culta, ostenta um maxilar cerrado e duro que dá um estofo bem necessário a esta tentativa de manual de sobrevivência. É uma pena que Fria não tenha conseguido materializar o peso psicológico dos seus temas num conceito de entidade assassina que fosse verdadeiramente arrebatador — embora, sejamos justos, pôr literalmente um monstro no armário talvez fosse esticar demasiado a corda. Enquanto uns perseguem o eco da morte através de postais nas grandes capitais, outros tentam não ser devorados pelos fantasmas que os esperam à porta do quarto. A fuga para a frente, seja ela qual for, raramente acaba em redenção.

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